As tarifas comerciais impostas durante o governo de Donald Trump provocaram uma reviravolta na ordem econômica internacional. Sob a bandeira do “America First”, os Estados Unidos embarcaram em uma estratégia agressiva de proteção industrial, mirando especialmente a China, seu maior parceiro comercial à época. O resultado foi uma escalada de tensões comerciais que extrapolou fronteiras, gerando incertezas generalizadas e impulsionando transformações profundas nas cadeias globais de produção. Os reflexos dessa política ainda são sentidos e continuam influenciando decisões estratégicas em empresas e governos pelo mundo.
A guerra comercial entre EUA e China, oficialmente deflagrada em 2018, marcou o início de um dos episódios mais tensos da economia global nas últimas décadas. Trump aplicou tarifas sobre centenas de bilhões de dólares em importações chinesas, alegando práticas comerciais desleais, roubo de propriedade intelectual e desequilíbrio no comércio bilateral. Pequim respondeu com medidas equivalentes, taxando produtos agrícolas e industriais americanos. Esse cabo de guerra tarifário não apenas freou o comércio entre as duas maiores economias do mundo, como também afetou diretamente países que orbitam essas relações — inclusive o Brasil, pressionado a reposicionar-se no novo xadrez geoeconômico.
Com o aumento das tarifas, empresas multinacionais buscaram alternativas à dependência da manufatura chinesa. Houve uma corrida por realocação industrial, com países como Vietnã, Índia e México ganhando protagonismo. O movimento de saída da China, embora parcial, provocou mudanças estruturais nas cadeias de suprimento, elevando custos logísticos, exigindo novos investimentos e gerando atrasos produtivos em setores como tecnologia, automobilismo e vestuário. Essa descentralização industrial, ainda em curso, tem colocado à prova a capacidade de adaptação das economias e revelado a fragilidade da hiperconectividade comercial global.
A instabilidade criada pelas tarifas e pela retórica combativa de Trump não se limitou ao campo comercial. A confiança de investidores foi abalada, e os mercados financeiros oscilaram diante da imprevisibilidade nas decisões da Casa Branca. Instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial alertaram para os riscos de desaceleração econômica global. Em 2019, o FMI reduziu suas projeções de crescimento global, citando a guerra comercial como um dos principais fatores de retração. Países em desenvolvimento, altamente dependentes de exportações e investimentos estrangeiros, foram os mais vulneráveis ao novo cenário de incerteza.
Dentro dos Estados Unidos, os efeitos da política tarifária dividiram opiniões. Alguns setores industriais, como o de aço e alumínio, foram beneficiados pelas medidas protecionistas, que encareceram produtos estrangeiros e favoreceram a produção interna. Por outro lado, consumidores americanos passaram a pagar mais caro por bens de consumo, e segmentos que dependem de componentes importados sofreram com o aumento dos custos. A agricultura foi duramente atingida pelas retaliações chinesas, levando o governo Trump a distribuir bilhões de dólares em subsídios para compensar as perdas de produtores rurais — um sinal claro de que o protecionismo, embora popular em certos círculos, também impôs altos custos internos.
Mesmo após a saída de Trump, o legado de sua política comercial persiste. O governo Biden, embora tenha adotado um tom mais diplomático e cooperativo, manteve grande parte das tarifas em vigor, indicando uma inflexão estrutural na postura dos EUA frente à globalização. As tensões comerciais deixaram de ser uma exceção e passaram a fazer parte do jogo geopolítico moderno, em que tarifas, sanções e subsídios são usados como instrumentos estratégicos. A globalização, antes tida como um processo irreversível, agora se vê repensada — mais cautelosa, fragmentada e sujeita a interesses nacionais cada vez mais assertivos.