30 Mar
30Mar

O Brasil se prepara para uma supersafra em 2025, com previsão de 328 milhões de toneladas de grãos, sendo 167 milhões apenas de soja. O país, reconhecido mundialmente como potência agrícola, colhe os frutos de décadas de avanços em produtividade e tecnologia no campo. No entanto, esse sucesso esbarra em um velho e persistente obstáculo: a infraestrutura logística precária, que reduz a eficiência, eleva os custos e impede que o agronegócio brasileiro alcance todo o seu potencial de rentabilidade.

O maior gargalo é, sem dúvida, a falta de capacidade de armazenagem. Atualmente, o Brasil dispõe de armazéns para estocar apenas 211 milhões de toneladas — cerca de 64% da colheita projetada. Isso obriga os produtores a escoarem rapidamente a safra assim que sai da colheitadeira, o que gera um efeito dominó. Caminhões viram depósitos improvisados, filas quilométricas se formam em portos estratégicos como Miritituba (PA) e os custos de frete disparam entre 50% e 70%, afetando diretamente os preços dos alimentos no mercado interno.

Esse desequilíbrio entre produção e armazenagem se agravou nos últimos anos. A expansão da capacidade de estocagem cresce a metade do ritmo da produção, e as dificuldades para construir novos armazéns são imensas. Falta crédito acessível, sobra burocracia para o licenciamento, e há insegurança jurídica sobre a tributação estadual da atividade. Para muitos produtores, o risco e o custo elevado tornam o investimento inviável, mesmo sendo uma prioridade urgente.

Sem armazenagem adequada, o escoamento da safra se dá de forma concentrada e apressada, causando distorções de preços. Na colheita, os produtores são forçados a vender a produção por valores mais baixos, enquanto na entressafra, os preços sobem pela escassez de oferta. Esse vai-e-vem prejudica toda a cadeia agroindustrial, tornando o mercado instável e limitando os lucros do setor. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), com uma infraestrutura de padrão internacional, os produtores poderiam lucrar até 55% mais.

Outro fator crítico é a dependência do transporte rodoviário, que responde por mais de 60% da logística do agro. Apenas 41% das estradas que servem o escoamento agrícola estão em boas condições, conforme a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A baixa qualidade das vias eleva os custos de transporte e compromete a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional. Ferrovias e hidrovias são alternativas promissoras, mas os investimentos são insuficientes e os projetos de longo prazo seguem engavetados.

A supersafra que deveria ser sinônimo de prosperidade se transforma em um desafio logístico anual. Para transformar o potencial agrícola em riqueza efetiva, o país precisa priorizar políticas públicas para infraestrutura, simplificar o ambiente regulatório e criar mecanismos que incentivem o investimento em armazenagem e transporte multimodal. Sem isso, o agronegócio continuará crescendo com o freio de mão puxado — desperdiçando oportunidades e corroendo sua própria rentabilidade.

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