O Canal do Panamá, uma das vias mais estratégicas do comércio global, voltou ao centro das atenções internacionais com a recente suspensão da venda de dois portos localizados em sua zona de influência. O motivo: uma investigação dos órgãos reguladores antitruste da China sobre o acordo liderado pela gigante americana BlackRock, que pretendia adquirir ativos da empresa de Hong Kong CK Hutchison. A decisão chinesa, que trava temporariamente o fechamento da negociação, adiciona mais um capítulo às tensões crescentes entre China e Estados Unidos.
Embora o canal em si continue sob total controle do governo panamenho desde 1999, após quase um século de gestão americana, o entorno da infraestrutura ainda é motivo de disputa entre grandes potências. A CK Hutchison, ligada ao governo chinês, controla operações portuárias em ambos os extremos do canal, o que alimenta receios em Washington. A tentativa de compra desses ativos por um consórcio liderado pela BlackRock visava, entre outras coisas, reduzir essa influência.
O canal, com 82 quilômetros de extensão, é vital para o fluxo de mais de 4% do comércio marítimo mundial, além de mais de 40% do tráfego de contêineres dos Estados Unidos. Desde sua ampliação em 2016, a importância estratégica só aumentou. Em 2024, seus lucros chegaram a quase US$ 5 bilhões, representando cerca de um quarto da renda nacional do Panamá. Não à toa, cada movimento em torno dessa artéria logística global é monitorado com atenção redobrada.
As críticas do ex-presidente Donald Trump, que alegou erroneamente que a China controla o canal, revelam a complexidade da disputa. Trump chegou a ameaçar retomar o controle americano do canal e sugeriu que embarcações dos EUA deveriam transitar gratuitamente. Além disso, seus aliados, como o senador Marco Rubio, reforçaram que os Estados Unidos seriam obrigados a defender o canal caso ele fosse alvo de um ataque – o que, segundo eles, justificaria a isenção de tarifas.
O governo chinês, por sua vez, age de maneira estratégica. A suspensão temporária do acordo, sob o argumento de proteção à concorrência e ao interesse público, evidencia uma postura defensiva frente à tentativa americana de reequilibrar sua presença na região. Ao mesmo tempo, mostra que a influência de Pequim não se limita ao comércio, mas se estende também ao controle de narrativas e processos regulatórios globais.
A disputa em torno do Canal do Panamá mostra que, embora o território esteja nas mãos dos panamenhos, a geopolítica que o envolve é multinacional. Mais do que uma passagem entre oceanos, o canal se tornou um campo simbólico e estratégico de confronto entre as duas maiores potências do século XXI. Nesse xadrez global, cada porto, cada tarifa e cada acordo conta — e o Panamá, mais uma vez, se vê no centro do tabuleiro.